Este mar de pinho encontra-se em plena duna florestal, sendo este o último estágio evolutivo de um sistema dunar. As dunas, além de poderem ter géneses diferentes e serem estruturas geomorfológicas que variam entre si, possuem estágios evolutivos diferentes definidos pela proximidade do mar e vegetação que a coloniza. Isto acontece devido á frágil relação existente entre a formação da duna e a vegetação que a cobre, á medida que a duna progride ou regride. Desta forma podemos dividir estes estágios em cinco, sendo estes agrupados em duas divisões principais; o cordão dunar de duna móvel (instável e activa) e a duna fixa ( esta mais antiga e bem consolidada).
No limite superior da praia (zona que se encontra acima do nível de maré alta de águas vivas) encontramos o 1º estágio evolutivo; a duna embrionária. De seguida surge a duna primária ou duna branca que, á medida que se consolida através da deposição de mais areia eólica e da colonização de espécies vegetais de maior porte, converte-se em duna semi-fixa, o estágio que precede a verdadeira duna fixa.
A duna fixa é constituída por dois estágios evolutivos; a duna cinzenta e a duna florestal. A primeira é uma formação já consolidada e povoada por um coberto vegetal de maiores dimensões, constituído na sua maioria por pequenos arbustos e que precede a duna florestal que apresenta uma verdadeira floresta ocupada pelas mais diversas espécies de árvores e sem apresentar os sinais de atrofiamento característicos das “matas” que se formam nas dunas móveis ou nas áreas inter-dunares. De maneira geral e resumida esta é a estrutura base do sistema dunar que inicialmente encontrávamos em Vagos. Obviamente devido a toda uma variedade de factores (entre eles a acção humana) poderemos não encontrar estes sistemas tão bem definidos e delineados. Em relação ao concelho de Vagos notamos que não existe esta sucessão harmoniosa. Este facto prende-se acima de tudo com a fixação de populações humanas de considerável dimensão sobre vários estágios de duna móvel e fixa.
Não obstante, a Mata Nacional é de importância vital para uma variedade de espécies animais e vegetais. Foi por essa mesma importância que esta mata, que se estende de maneira quase ininterrupta de Vagos a Quiaios, foi incluída na Rede Natura 2000 sob a directiva “Habitats”. Esta directiva tem como principal objectivo contribuir para assegurar a Biodiversidade através da conservação dos habitats naturais e de espécies da flora e da fauna selvagens, considerados ameaçados no território da União Europeia.
Desta maneira o Pinheiro-bravo tornou-se a espécie arbórea dominante, no entanto, é possível encontrar Samouco Myrica faya e em algumas áreas um outro Choupo-branco Populus alba. O estrato arbustivo e sub-arbustivo é constituído por Tojo Ulex europaeus, Giesta-das-vassouras Cytisus grandiflorus e pelas infestantes Acácias Acacia melanoxylon, Acacia dealbata e Acacia longifolia. A Acácia da espécie Acacia longifolia tornou-se a mais problemática das infestantes, cujo avanço e domínio se afigura difícil de combater. Esta espécie ocupa de maneira monopolizadora um estrato florestal que revela ser importantíssimo para uma grande quantidade de espécies vegetais que fornecem recursos alimentares a toda uma variedade de invertebrados, aves e mamíferos. Visto que possuem uma estrutura complexa nos seus estágios arbustivos dificultam o acesso ao solo por parte de espécies que utilizam o estrato superior da floresta, mas que recorrem a este em busca de alimento.
E o acesso ao solo é de importância vital para muitas espécies animais. O solo apresenta uma riqueza substancial, em parte, devido á decomposição da manta morta. Encontramos aí uma profusão de espécies de fungos, líquenes e musgos, e por sua vez dos invertebrados que deles dependem.
Os Texugos Meles meles, que habitam a Mata Nacional, dependem desta fonte sazonal de alimento. Omnívoros, aproveitam qualquer oportunidade apresentada e revelando uma versatilidade admirável, alimentam-se de besouros, aves, ratos, minhocas e cogumelos. Apesar de serem de difícil observação depararemos facilmente com vestígios da sua presença, durante um passeio na Mata. Vestígios estes que poderão incluir pegadas, excrementos ou até caminhos bem como tocas.
Muitas espécies animais dependem, assim como o Texugo, da sazonalidade de algumas fontes de alimento. As plantas como base da cadeia alimentar têm manifestamente um papel importantíssimo na conservação da biodiversidade nesta floresta. As plantas em todas as suas formas (árvores, arbustos, musgos e gramíneas) constituirão 95% da biomassa desta região florestal. Assim, a preservação deste mesmo coberto vegetal é essencial para a manutenção das espécies animais que dele dependem, bem como das espécies que predam aqueles que usam os recursos vegetais deste ecossistema florestal. O Açor Accipiter gentilis é um desses predadores. É provavelmente a espécie mais emblemática desta zona florestal. Encontra nesta grande mancha florestal constituida por Pinheiro-bravo o seu habitat preferencial em Portugal. Uma estimativa da população nacional indica um valor de 200-300 casais, para uma espécie que aparenta um possível declínio, isto devido á perda do seu habitat- os pinhais bravos de alto fuste circundados por mosaicos agrícolas. Por se tratar de uma espécie quase inteiramente ornitófago ( que se alimenta de aves) é potencialmente sensível aos efeitos de pesticidas e metais pesados, sendo que poderá afectar o seu sucesso reprodutivo. O Açor ataca de emboscada. Empoleirado num ramo mais escondido espera que uma presa esteja ao seu alcance e na altura certa lança-se sobre ela num voo absolutamente delirante entre os troncos e ramos dos pinheiros. Esta enorme capacidade de manobra é conferida pelo facto de possuir asas relativamente curtas em proporção com o seu tamanho e uma cauda relativamente comprida que lhe confere uma enorme capacidade de manobra. Observar uma destas caçadas de Açor é algo de cortar a respiração! No entanto esta espécie é de uma versatilidade tremenda, podendo caçar em clareiras e terrenos agrícolas de maneira similar á dos falcões, elevando-se numa corrente ascendente térmica, caindo depois sobre a presa em voo picado a uma enorme velocidade, técnica que lhe permite caçar a sua principal presa: o Pombo Columba sp.. Apesar de todas estas características, não revela ser um predador insistente, ao falhar uma tentativa com uma presa específica, desiste para poder descansar, para pouco depois se lançar sobre outra.
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| O Tentillhão-comum Fringilla coelebs é o mais abundante dos fringilídeos florestais do concelho, nidificando com alguma abundância na Mata Nacional. |
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| Um Ouriço-cacheiro Erinaceus europaeus passa apressadamente em busca de refúgio. |
Em 1987 um enorme incêndio lavrou na parte sul do concelho, afectado uma área relativamente grande da Mata Nacional. Aí desenvolveu-se uma vegetação arbustiva que permitiu a fixação de várias espécies que aproveitaram um novo habitat criado pelo fogo. Primeiro espécies vegetais como o Tojo, a Giesta, Urze Erica sp. a Lavandula Lavandula sampaiana fixaram-se onde outrora existiu floresta. Este matagal quando em floração atrai inúmeras espécies de invertebrados que por sua vez atraem os seu predadores ( aves, répteis, anfíbios e pequenos mamíferos).
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| A luz como que fossiliza na imagem estas gramíneas Lagurus ovatus que crescem abundantemente nas estradas e caminhos florestais na Mata Nacional. |
Outra espécie de ave que beneficiou com o matagal criado pelos fogos florestais foi o Noitibó-cinzento Caprimulgus europaeus. O genitivo cientifico desta espécie revela uma crença que os antigos romanos possuíam em relação a esta ave; acreditavam que com a sua enorme “boca” mungia cabras, daí o Capri (de cabra) mulgus (aquele que munge). Esta “boca” enorme serve para capturar traças e outros invertebrados nocturnos que a ave captura em voo. A ave possui ainda barbas nas partes laterais das mandíbulas que orientam estes invertebrados para o interior do seu bico. È uma espécie nocturna de dimensões e aspecto similares a um pequeno falcão, sendo possível a confusão com um destes quando em voo. Já no solo a confusão é possível mas desta feita com a manta morta ou até mesmo com um ramo de uma árvore, é uma espécie altamente mimética (que se assemelha ao meio circundante) e que apenas levanta voo quando corre o risco de ser pisado. Como espécie migradora que é, apenas nos visita durante um período limitado, ocorrendo durante a época de nidificação, período que se estende de Maio a Setembro. Nesta altura os machos entretém-se com exibições elaboradas que apenas podem ser observadas ao ocaso. Durante a parada nupcial o macho bate as asas de maneira frenética produzindo um som similar a um matraquear. A fêmea deposita os ovos numa depressão do solo onde depois de chocados por ambos os progenitores nascem em média 2 a 3 crias activas e penugentas e bem capazes de se protegerem através de uma atitude de mimetismo característico da espécie. Ao encontrar um ninho desta ave deve-se evitar perturbar os progenitores e as crias. Lembramos que são animais selvagens e que pertencem a um ecossistema desempenhado nele uma função. Além de que esta espécie encontra-se em declínio em Portugal. Este declínio é provocado por factores como a destruição de habitat, morte e insucesso reprodutor por envenenamento e por elevada taxa de mortalidade por atropelamento automóvel.
A Mata Nacional é deveras o refúgio de um sem número de espécies! Cabe a cada um de nós a proteger este mesmo recurso natural que nos permite ser vizinho de criaturas extremamente belas e complexas. Por isso no Verão ao utilizarmos a Mata como espaço recreativo devemos lembrar-nos dos habitantes desta mesma área e por isso não usar ou então ter a máxima precaução ao utilizar o fogo. Não façamos desta Mata, que é de todos nós, um depósito de lixos. A Mata Nacional já enfrenta sérias ameaças que poderão pôr em causa a sustentabilidade dos ecossistemas que nela se integram sendo estes a invasão das Acácias Acacia longifolia, extracção ilegal de areias, a colheita desregrada de cogumelos comestíveis e o perigo de incêndio além de outros.
Não contribuamos também cada um de nós para a depauperização deste património que é de todos nós!
Por David Guimarães







