"Ao cair da tarde penso sempre mais, é a luz que me invade; são as cores naturais.

Cada figura que passa por mim nem me perturba e eu fico assim.

Longe me leva este silêncio, é o sentir que se altera: são as cores do Sol.

E eu fico Encantado(a) e eu sinto-me arder, quando o dia se apaga fica tanto por ver..."

Pedro Ayres Magalhães e Gabriel Gomes in "As Cores do Sol"



Mar, Areia e Dunas; O litoral de Vagos

 O litoral é um local peculiar, pois serve como fronteira entre o mar e a terra.

O nível das águas sobe e desce ao ritmo das marés criando uma área que periodicamente está submersa, humedecida ou totalmente seca. Existem também os ventos que circulam sobre as massas oceânicas, sem qualquer restrição geomorfológica e que ao encontrarem terra libertam uma enorme quantidade de energia. Estes ventos levantam por sua vez vagas que como consequência irão rebentar nas praias.

E é assim, por entre o ir e vir das vagas, o constante soprar do vento e entre a inexorável força das correntes que se formam os ecossistemas litorais. A água, a areia, o vento e as correntes exercem continua pressão sobre a geomorfologia e seres vivos que aí se fixam.

Por milhares de anos as ondas atingem sucessivamente as linhas de costa que se alteram devido a este constante martelar do oceano. Este martelar é também acompanhado por ciclos periódicos de subida ou descida do nível médio das águas do mar, provocados por aquecimentos ou arrefecimentos globais.

O martelar do Atlântico sobre a linha de costa do Areão.
Dois terços do nosso planeta encontram-se cobertos por água, e assim qualquer porção de terra acaba por fazer fronteira com o mar! Vagos não é excepção! Com pouco mais de 7Km de linha de costa Vagos apresenta uma biodiversidade invejável ampliada como é óbvio, pelas linhas de costa interiores nos dois braços da Ria de Aveiro.

O mar e o vento são forças devastadoras e extremamente poderosas, sendo este poder mais prontamente visível nos esporões durante uma tormenta num dia de Inverno.É nessas alturas que o Mar aparentemente se revela mais poderoso e feroz. Mas o mar é um grande pai e esta sua raiva é compensada pela bondade e generosidade que são atestadas pelas comunidades piscatórias que se fixaram em Vagos extraindo do Atlântico o pão de cada dia.Criaram uma arte piscatória própria, a arte Xávega, que lhes permitiu vencer a força dos ventos e ondas, para do mar poderem extraír a sua grande riqueza.

E esta riqueza é verificada nas inúmeras espécies de peixe que pelas nossas águas nadam. Peixes tais como as Sardinhas Sardina pilchardus, Carapau Trachurus trachurus, Cavala Scomber scombrus entre outras, tornaram rentável a actividade piscatória. Estas espécies que além de terem o seu valor gastronómico e daí produzirem riqueza para as comunidades humanas, são o chamariz para a grande variedade de Ornitofauna que encontramos paralelamente ás praias. É graças a esta abundância que no Inverno encontramos por entre as ondas ou sobre elas o Ganso-patola  Morus bassanus, a Torda-mergulheira Alca torda, o Alcaide Catharacta skua ou até a Cagarra Calonectris diomedea .

Esta abundância de peixe e moluscos, deriva obviamente da riqueza característica das correntes frias que banham esta costa. Por isso mesmo a linha de costa do concelho de Vagos é importantíssima para a invernada de espécies como a Negrola  Melanitta nigra uma espécie de pato marinho que se alimenta de moluscos e crustáceos, e que é vista ao longe como pequenas bolas negras que sobem e descem ao sabor das vagas. Estes patos reproduzem-se em latitudes árcticas e sub-árticas numa ampla variedade de habitats, incluindo lagos de tundra, margens ribeirinhas, ilhas e terrenos. No inverno estes animais procuram linhas costeiras de fundo arenoso e não muito profundas, 10-20m de profundidade preferencialmente, para aí se poderem alimentar. Enquanto no mar, estes patos parecem incansáveis, dado que efectuam voos constantes e rasos em grupo sobre a linha de água. Chegam-se por vezes a contar algumas centenas de indivíduos espalhados por vários pontos ao largo da nossa costa, sendo os esporões o melhor local para os poder observar com ajuda de binóculos! É a presença destas mesmas aves que torna a faixa litoral do concelho parte integrante da IBA (Important Bird Area; área importante para as aves) PT 007, Ria de Aveiro, que apesar de ser na sua maior parte constituida pela bacia lagunar inclui também uma área de águas marinhas adjacentes à costa com uma profundidade até 20m.

Mas esta riqueza em peixe e moluscos não atrai apenas aves. Golfinhos como os Roazes-corvineiros Tursiops truncatus ou as Toninhas Phocoena phocoena  aproveitam também esta riqueza, usando a linha de costa nas suas deambulações oceânicas, e apesar de não serem tão facilmente observáveis como as aves, com um pouco de sorte podem-se por vezes observar grupos em passagem. Infelizmente também os encontramos por vezes mortos na praia, resultado de emalhamentos.

As algas, as pseudo-plantas do mar, não são consideradas actualmente, pela maioria dos taxionomistas( do grego Táxis que significa ordem, sendo a Taxionomia a parte da sistemática que considerando as semelhanças e diferenças de caracteres, agrupa os seres com base em categorias) verdadeiras plantas, não pertencendo portanto ao Reino Plantae e sendo agrupadas no Reino Protista.

As algas não desenvolvem flores, reproduzindo-se das mais diversas maneiras, algumas por exemplo adquirem extremidades entumescidas que libertam na água que as rodeia células masculinas e femininas. As algas não possuem ademais raízes, caules ou folhas, apesar de que nas formas mais desenvolvidas encontrarmos estipes ( o equivalente a um caule) e frondes ( o equivalente a uma folha) talosas, e por vezes órgãos que têm por função fixar a alga e que se poderão assemelhar a raízes apesar de não desempenharem nunca as funções complexas destas últimas. Uma boa parte das espécies de algas não possuem um sistema vascular para o transporte de água e de sais minerais. Os nutrientes são absorvidos de maneira directa através do talo, exactamente a partir da água do mar. Cerca de 90% das espécies de algas são unicelulares, mas apesar do seu diminuto tamanho são as principais produtoras de O2( oxigénio respirável) em todo o planeta. Em Vagos encontramos entre as espécies multicelulares três grupos principais; as algas verdes, vermelhas e castanhas. Visto que os últimos dois grupos são mais comuns em litorais rochosos, encontraram nos esporões um habitat adequado ás suas necessidades biológicas. Três espécies que exemplificam estes gupos são a Alface-do-mar Ulva lactuca uma espécie de alga verde sem órgãos de fixação que se pode encontrar numa enorme variedade de habitats, inclusive na própria ria, a Bodelha Fucus vesiculosus uma alga castanha que necessita de ponto de fixação rochoso e que possui extremidades intumescidas que contém os seus órgãos reprodutores, por fim temos a Polysiphonia lanosa uma espécie vermelha que usa outras algas como suporte para a sua fixação.

Alface-do-mar Ulva lactuca
 Mas o mar encontra-se sempre com terra, e nessa zona de contacto, regida por um sistema de marés, muitas espécies de seres vivos procuram sobreviver, e conseguem-no de maneiras muito engenhosas. As espécies animais adaptaram-se a esta vida do vai e vem. Muitas das espécies que encontramos nas praias são exclusivas destes biótopos, encontrando-se porém nos vários braços da Ria, ela própria extensão deste ecossistema como bacia lagunar que é. No oportunismo característico da adaptabilidade animal, muitos retiram deste ponto de encontro entre terra e mar o maior proveito, apesar das condições adversas que aí por vezes encontram.

A zona entre marés (zona intertidal ou intermareal) é pródiga em casos destes, isto porque os seres vivos que aí habitam têm biologias adaptadas a estes regulares avanços e recuos do mar. Esta adaptação vai desde a dieta e as “horas de refeição” até aos hábitos reprodutores das espécies.

É o que se dá com a Navalha da espécie Pharus legumen. Esta hábil criatura durante a maré alta alimenta-se, tendo o corpo parcialmente enterrado na areia, sendo que após a descida da maré enterra-se lentamente até uma profundidade de quase 1m subindo assim que a maré sobe.

Nos esporões encontramos exemplos claros deste ritmo mareal. As anémonas são uma prova disso. Apesar de parecidas com flores as anémonas são animais, ocos e gelatinosos, pertencentes ao grupo dos celenterados ou cnidários, grupo este que inclui alforrecas e corais. Durante a baixa mar as anémonas que ocorrem no litoral em Vagos (visto que outras espécies não o fazem) , recolhem estas “pétalas” com o objectivo de evitar a desidratação, parecendo portanto um gomo gelatinoso, nada similar àquilo que é visto aquando da preia mar. Estas suas “pétalas” são na realidade tentáculos especializados com células urticantes, que paralisam a presa que depois é transportada para o interior da boca. Estes seres que aparentemente estão presos á rocha deslocam-se lentamente, deslizando por meio das suas bases musculosas.

Anémona Actinia equina
Encontramos, na zona intertidal, principalmente a espécie Actinia equina, sendo relativamente comum entre as rochas que constituem os esporões.Aí podemos observar as duas formas da espécie, a vermelha e a verde.

Os esporões apesar de serem obras humanas, nas quais a sua função e estética é alvo de muita discussão, apresentam no entanto um novo habitat inexistente no concelho até a sua construção; a linha de costa rochosa.

Nos esporões encontramos, por isso, muitas espécies que de outra forma não encontrariam em Vagos habitat adequado às suas biologias. Por exemplo as várias espécies de lapas que encontramos nos esporões Patella sp. têm aí um local de fixação apenas provido por acção humana no concelho. Na zona inferior de maré ( a zona mais próxima do nível máximo da maré baixa) encontramos Percebes Lepas anatifera cirrípede que se especialisou em sobreviver na zona de rebentação.

Rola-do-mar Arenaria intrepres, esporão do Areão
 A Rola-do-mar Arenaria interpres encontra, no período de Invernada e de Migração, nestes esporões um local adequado ás suas necessidades alimentares. Esta espécie têm uma área de distribuição mundial relativamente extensa encontrando-se em litorais rochosos na Europa, Ásia, África, Oceânia e América. Como nidificante na Europa apenas a encontramos na Península Escandinava, distribuindo-se no Inverno pelas costa da Europa Ocidental, Meridional e África. Apesar desta mesma ave poder-se encontrar em litorais arenosos, esta espécie encontra em litorais com substrato rochoso uma maior variedade de moluscos e outros invertebrados dos quais se alimenta. Esta ave é encontrada frequentemente em pequenos grupos que mantém unidos, praticamente durante todo o Inverno. Antes da construção dos esporões seria difícil observar uma destas aves em Vagos, mas após a sua edificação, tornaram-se uma presença assídua.


Pirlito-da-areia Calidris alba, Praia da Vagueira
 Nas areias que se escondem por entre o vai-e-vém das ondas aves como os Pilritos-da-areia Calidris alba, Pilrito-comum Calidris alpina, Borrelho-de-coleira-interrompida Charadrius alexandrinus ou Borrelho-grande-de-coleira Charadrius hiaticula encontram o tão precioso alimento na forma de Pulgas-do-mar como a Talitrus saltator, e outros invertebrados.

A praia alta, aquela parte da praia que por norma não é afectada pela subida ou descida das marés, é relativamente pobre em termos de fauna e flora.É apenas na maior parte das vezes apenas uma zona de trânsito.

A sílica é o principal constituinte desta rocha que é a areia, que constitui a praia. A areia que pisamos numa praia do concelho, não é necessariamente originária da zona, na maior parte das vezes vento e água trouxeram estas partículas de locais distantes, depois de as erodirem e fraccionarem através de forças mecânicas e hidráulicas.

Feno-das-areias Elymus farctus

Com a ajuda do vento, já na parte superior da praia formam-se as dunas. Primeiro é movimentada areia seca através de transporte, durante a baixa mar, sendo depositada no interior. Uma duna começa por se formar quando o Feno-das-areias Elymus farctus coloniza a parte superior da praia, a zona que está acima do nível máximo da preia-mar de uma maré viva. Visto que esta zona acaba por estar sujeita a frequenttes galgamentos marinhos, que aí depositam detritos orgânicos que favorecem a colonização periódica por parte de plantas anuais que resistam á submersão temporária. O feno-das-areias ao fixar-se funciona como um obstáculo ao vento que, na passagem, é travado e a sua carga de areia é aí depositada. Esta areia depositada forma um pequeno montículo, onde por acréscimo devido á presença do Feno-das-areias se deposita mais areia por acção eólica. Esta fase, designada por duna embrionária na qual a duna não ultrapassa 1m de altura, pode durar anos e depende da presença do Feno-das-areias. A partir daí começa a surgir a primeira vegetação, sendo que as espécies que primeiro ocupam este protótipo de duna se designam espécies pioneiras e que ao radicularem (ao criarem raízes) consolidam as areais depositadas.

Duna já consolidada.
Este processo eólico de deposição de areia continua, aumentando o tamanho da duna que desta feita é ocupada por um maior número de plantas, havendo um consequente aumento progressivo da diversidade de espécies, que ao se fixarem consolidam ainda a mais a própria duna. É esta deposição constante de areia provocada pela fixação do Feno-das-areias, através do transporte eólico de areia da parte inerior da praia, e a subsequente fixação de vegetação mais complexa e variada que forma a duna permite a sua consolidação. Apesar do dinamismo inerente a todo este processo é a sua continuidade que permite a formação da duna e a sua estabilização.

Afinal é esta estreita relação entre vento, areia e vegetação que confere ás dunas um papel importantíssimo na protecção do litoral.

Infelizmente em Vagos a duna móvel, a responsável principal, por esta acção protectora, têm vindo a ser muito maltratada devido a interesses económicos. Alguns deles por vezes ilegais, como a extracção de inertes, outros legais e até meritórios,como a actividade agrícola mas que acabam por danificar o equílibrio deste frágil ecossistema. A duna fixa sem bosque quase desapareceu por completo, devido a ocupação humana da faixa onde ela se primitivamente se encontrava. A duna fixa de bosque que encontramos em Vagos, está em relativo bom estado de preservação, na forma da Mata Nacional das Dunas da Vagos.
Os ecossistemas que nelas se formam são, enquanto intocados, de uma riqueza tremenda. São caracterizados pelo dinamismo inerente ás forças fisicas que o condicionam, sendo que aproximação ao mar torna-se um elemento selectivo das espécies animais e vegetais que aqui encontramos. No entanto é só a duna que dá á planta, a duna sem a planta não chegaria a ser duna. Este é um dos motivos pelos quais temos de ter o máximo cuidado com a vegetação que encontramos na duna. Ela é vital para que a estrutura se possa manter. Escusado será dizer que pisar ou destruir esta vegetação é nocivo não apenas para um ecossistema, o é também para uma formação geológica que preserva um espaço humano de lazer como é a praia ou de trabalho ou habitação, sendo esta última a área que se encontra protegida pela duna.

O soterramento por parte de areias eólicas é uma constante.
As plantas adaptaram-se ás condições salsuginosas dos ventos marítimos assumindo o atrofiamento característico das plantas que se encontram em ecossistemas dunares. Nós seres humanos, apercebemo-nos rapidamente dessa alteração drástica de condições ambientais. Ao nos aproximarmos da linha de costa sentimos o aumento da intensidade do vento e o forte cheiro a maresia, provocado pelas pequenas gotículas de água salgada que são arrastadas pelo vento. Depois a escassez de água doce dificulta o crescimento das plantas que pouca água e nutrientes conseguem retirar da areia, por isso essas mesmas plantas, que encontramos na duna móvel ou primária têm geralmente baixo porte, isto porque têm que resistir aos ventos forte e aos respingos salgados e durante o Inverno talvez ocasionalmente á submersão. Só para lá da duna primária, e quase sempre aninhadas entre dunas de grandes dimensões florescem arbustos e árvores que apesar da sua aparente protecção nunca atingem as dimensões que atingiriam fora destas condições adversas. Estas plantas têm que, também, resistir ás enormes amplitudes térmicas diárias e anuais, á grande luminosidade e ao soterramento constante.


Chorão Carpobrotus edulis
O lado da duna que enfrenta o mar é por isso de uma enorme pobreza florística, sendo o Estorno  Ammophila arenaria a planta mais comum e representativa, isto devido á sua grande resistência ao vento e salinidade e acima de tudo ao soterramento dado que esta gramínea possui uma enorme capacidade regenerativa Esta planta, acaba por ser uma das ditas espécie pioneiras devido exactamente ás características que acabamos de enunciar. Os Cordeirinhos-da-praia Otanthus maritimus que desempenham juntamente com o Feno-das-areias um papel crucial no crescimento da duna embrionária fixam-se muitas vezes na frente da duna. Os Cardos–marítimos Eryngium maritimum, planta rude de folhas coriáceas e espinhosas, é uma companheira quer do Estorno quer do Cordeirinho-da-praia, na formação da duna bem como na parte frontal. As raízes desta espécie formam uma densa rede que consolida as areias onde se fixa. Esta espécie característica das dunas brancas (as dunas móveis e as semi-fixas) pode por vezes ser encontrada na Mata Nacional nos aceiros que a atravessam.Devemos ter todo o cuidado com esta espécie por evitar pisar ou destruir os espécimes que possamos encontrar, devemos alertar outros para a importância deste Cardo-marítimo para a conservação da duna. Esta planta de flôr violeta, têm vindo a escassear no concelho, devido á ocupação do seu habitat preferencial por uma infestante sul africana: o Chorão Carpobrotus edulis. Esta espécie de crescimento rápido monopoliza toda uma vasta área impedindo o crescimento de outras espécies, empobrecendo o ecossistema quer em termos florísticos bem como faunisticos, visto que os animais que dependem das espécies nativas para aspectos importantes da sua biologia (abrigo, ninho, alimento, etc…) veêm-se privados destas mesmas plantas e assim as suas populações regridem devido á insustentabilidade provocada pela falta das espécies vegetais das quais dependem.


A vertente da duna virada para o interior e a zona entre dunas ou inter-dunar, por estar mais abrigada da acção do vento e não ter contacto directo com o mar, alberga uma maior variedade florística, podemos aí encontrar toda uma variedade de gramíneas bem como arbustos, podendo citar o exemplo de uma espécie que já não ocorre no concelho devido ás infestantes Acácia Acacia sp. e á pressão humana sobre o seu habitat inter-dunar: a Camarinheira Corema album. Esta espécie ocorre a sul no concelho de Mira sendo aí relativamente abundante e ocorre também a norte no concelho de Aveiro. Outras espécies ocupam também esta parte da duna móvel que se torna semi-fixa, o Pinheiro-bravo Pinus pinaster que nestas condições não atinge as dimensões que lhe são caraterísticas.

Larva de Formiga-leão Myrmeleon formicarius

Os animais que por sua vez usam estes espaços aproveitam o melhor de dois mundos. Límicolas e Gaivotas aproveitam estas zonas inter-dunares para nidificarem perto dos seus locais de alimentação. Raposas Vulpes vulpes e Ginetas Genetta genetta que deambulam nos bosquetes nas áres inter-dunares alimentam-se por vezes daquilo que o mar oferece á terra, peixe moluscos etc. Mas os verdadeiros senhores da duna móvel são os invertebrados; insectos, aracnídeos, miriápodes e moluscos terrestres. E por mais incrível que pareça, répteis e anfibios aproveitam a tremenda variedade de invertebrados para se alimentarem. Durante as migrações sazonais, as aves recorrem a estes ecossistemas inter-dunares em número elevado, dado a sua proximidade com as linhas de costas que muitas delas usam como referência espacial aquando das sua épicas viagens, dos seus locais de Invernada aos de Nidificação ou vice-versa. Nessa altura encontramos muitas espécies que não esperaríamos encontrar no cordão dunar. Estas zonas revelam ser de suma importância para aquisição de calorias para as aves insectívoras e seus predadores, no decorrer das suas migrações. Muitas desta migrações são aparentemente invisíveis porque decorrem durante a noite ou porque os efectivos são por vezes reduzidos e passam de maneira faseada não sendo por isso facilmente notadas. De qualquer modo podemos ter a certeza que estas zonas ricas em invertebrados são importantíssimas para a preservação deste património faunístico global.

Aprendemos assim que a importância da duna estende-se para além dos seu limites espaciais e que influencia inúmeras espécies vegetais e animais de que dela dependem e das quais a própria duna depende. Para mais, além de se apresentarem como os espaços verdes do litoral, as dunas constituem uma das riquezas ecológicas e paisagísticas do concelho.

Tentantiva humana de impedir o desaparecimento da duna através da fixação de estacas de madeira. Praia do Areão.
Assim a utilização incauta deste território, para usos recreativos e para fins habitacionais, têm levado estes ecossistemas a um estado de desequilíbrio que conduz a uma erosão costeira preocupante e á consequente destruição dos ecossistemas que poderiam travar essa mesma erosão.

Por David Guimarães