O nível das águas sobe e desce ao ritmo das marés criando uma área que periodicamente está submersa, humedecida ou totalmente seca. Existem também os ventos que circulam sobre as massas oceânicas, sem qualquer restrição geomorfológica e que ao encontrarem terra libertam uma enorme quantidade de energia. Estes ventos levantam por sua vez vagas que como consequência irão rebentar nas praias.
E é assim, por entre o ir e vir das vagas, o constante soprar do vento e entre a inexorável força das correntes que se formam os ecossistemas litorais. A água, a areia, o vento e as correntes exercem continua pressão sobre a geomorfologia e seres vivos que aí se fixam.
Por milhares de anos as ondas atingem sucessivamente as linhas de costa que se alteram devido a este constante martelar do oceano. Este martelar é também acompanhado por ciclos periódicos de subida ou descida do nível médio das águas do mar, provocados por aquecimentos ou arrefecimentos globais.
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| O martelar do Atlântico sobre a linha de costa do Areão. |
O mar e o vento são forças devastadoras e extremamente poderosas, sendo este poder mais prontamente visível nos esporões durante uma tormenta num dia de Inverno.É nessas alturas que o Mar aparentemente se revela mais poderoso e feroz. Mas o mar é um grande pai e esta sua raiva é compensada pela bondade e generosidade que são atestadas pelas comunidades piscatórias que se fixaram em Vagos extraindo do Atlântico o pão de cada dia.Criaram uma arte piscatória própria, a arte Xávega, que lhes permitiu vencer a força dos ventos e ondas, para do mar poderem extraír a sua grande riqueza.
E esta riqueza é verificada nas inúmeras espécies de peixe que pelas nossas águas nadam. Peixes tais como as Sardinhas Sardina pilchardus, Carapau Trachurus trachurus, Cavala Scomber scombrus entre outras, tornaram rentável a actividade piscatória. Estas espécies que além de terem o seu valor gastronómico e daí produzirem riqueza para as comunidades humanas, são o chamariz para a grande variedade de Ornitofauna que encontramos paralelamente ás praias. É graças a esta abundância que no Inverno encontramos por entre as ondas ou sobre elas o Ganso-patola Morus bassanus, a Torda-mergulheira Alca torda, o Alcaide Catharacta skua ou até a Cagarra Calonectris diomedea .
Esta abundância de peixe e moluscos, deriva obviamente da riqueza característica das correntes frias que banham esta costa. Por isso mesmo a linha de costa do concelho de Vagos é importantíssima para a invernada de espécies como a Negrola Melanitta nigra uma espécie de pato marinho que se alimenta de moluscos e crustáceos, e que é vista ao longe como pequenas bolas negras que sobem e descem ao sabor das vagas. Estes patos reproduzem-se em latitudes árcticas e sub-árticas numa ampla variedade de habitats, incluindo lagos de tundra, margens ribeirinhas, ilhas e terrenos. No inverno estes animais procuram linhas costeiras de fundo arenoso e não muito profundas, 10-20m de profundidade preferencialmente, para aí se poderem alimentar. Enquanto no mar, estes patos parecem incansáveis, dado que efectuam voos constantes e rasos em grupo sobre a linha de água. Chegam-se por vezes a contar algumas centenas de indivíduos espalhados por vários pontos ao largo da nossa costa, sendo os esporões o melhor local para os poder observar com ajuda de binóculos! É a presença destas mesmas aves que torna a faixa litoral do concelho parte integrante da IBA (Important Bird Area; área importante para as aves) PT 007, Ria de Aveiro, que apesar de ser na sua maior parte constituida pela bacia lagunar inclui também uma área de águas marinhas adjacentes à costa com uma profundidade até 20m.
Mas esta riqueza em peixe e moluscos não atrai apenas aves. Golfinhos como os Roazes-corvineiros Tursiops truncatus ou as Toninhas Phocoena phocoena aproveitam também esta riqueza, usando a linha de costa nas suas deambulações oceânicas, e apesar de não serem tão facilmente observáveis como as aves, com um pouco de sorte podem-se por vezes observar grupos em passagem. Infelizmente também os encontramos por vezes mortos na praia, resultado de emalhamentos.
As algas, as pseudo-plantas do mar, não são consideradas actualmente, pela maioria dos taxionomistas( do grego Táxis que significa ordem, sendo a Taxionomia a parte da sistemática que considerando as semelhanças e diferenças de caracteres, agrupa os seres com base em categorias) verdadeiras plantas, não pertencendo portanto ao Reino Plantae e sendo agrupadas no Reino Protista.
As algas não desenvolvem flores, reproduzindo-se das mais diversas maneiras, algumas por exemplo adquirem extremidades entumescidas que libertam na água que as rodeia células masculinas e femininas. As algas não possuem ademais raízes, caules ou folhas, apesar de que nas formas mais desenvolvidas encontrarmos estipes ( o equivalente a um caule) e frondes ( o equivalente a uma folha) talosas, e por vezes órgãos que têm por função fixar a alga e que se poderão assemelhar a raízes apesar de não desempenharem nunca as funções complexas destas últimas. Uma boa parte das espécies de algas não possuem um sistema vascular para o transporte de água e de sais minerais. Os nutrientes são absorvidos de maneira directa através do talo, exactamente a partir da água do mar. Cerca de 90% das espécies de algas são unicelulares, mas apesar do seu diminuto tamanho são as principais produtoras de O2( oxigénio respirável) em todo o planeta. Em Vagos encontramos entre as espécies multicelulares três grupos principais; as algas verdes, vermelhas e castanhas. Visto que os últimos dois grupos são mais comuns em litorais rochosos, encontraram nos esporões um habitat adequado ás suas necessidades biológicas. Três espécies que exemplificam estes gupos são a Alface-do-mar Ulva lactuca uma espécie de alga verde sem órgãos de fixação que se pode encontrar numa enorme variedade de habitats, inclusive na própria ria, a Bodelha Fucus vesiculosus uma alga castanha que necessita de ponto de fixação rochoso e que possui extremidades intumescidas que contém os seus órgãos reprodutores, por fim temos a Polysiphonia lanosa uma espécie vermelha que usa outras algas como suporte para a sua fixação.
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| Alface-do-mar Ulva lactuca |
A zona entre marés (zona intertidal ou intermareal) é pródiga em casos destes, isto porque os seres vivos que aí habitam têm biologias adaptadas a estes regulares avanços e recuos do mar. Esta adaptação vai desde a dieta e as “horas de refeição” até aos hábitos reprodutores das espécies.
É o que se dá com a Navalha da espécie Pharus legumen. Esta hábil criatura durante a maré alta alimenta-se, tendo o corpo parcialmente enterrado na areia, sendo que após a descida da maré enterra-se lentamente até uma profundidade de quase 1m subindo assim que a maré sobe.
Nos esporões encontramos exemplos claros deste ritmo mareal. As anémonas são uma prova disso. Apesar de parecidas com flores as anémonas são animais, ocos e gelatinosos, pertencentes ao grupo dos celenterados ou cnidários, grupo este que inclui alforrecas e corais. Durante a baixa mar as anémonas que ocorrem no litoral em Vagos (visto que outras espécies não o fazem) , recolhem estas “pétalas” com o objectivo de evitar a desidratação, parecendo portanto um gomo gelatinoso, nada similar àquilo que é visto aquando da preia mar. Estas suas “pétalas” são na realidade tentáculos especializados com células urticantes, que paralisam a presa que depois é transportada para o interior da boca. Estes seres que aparentemente estão presos á rocha deslocam-se lentamente, deslizando por meio das suas bases musculosas.
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| Anémona Actinia equina |
Os esporões apesar de serem obras humanas, nas quais a sua função e estética é alvo de muita discussão, apresentam no entanto um novo habitat inexistente no concelho até a sua construção; a linha de costa rochosa.
Nos esporões encontramos, por isso, muitas espécies que de outra forma não encontrariam em Vagos habitat adequado às suas biologias. Por exemplo as várias espécies de lapas que encontramos nos esporões Patella sp. têm aí um local de fixação apenas provido por acção humana no concelho. Na zona inferior de maré ( a zona mais próxima do nível máximo da maré baixa) encontramos Percebes Lepas anatifera cirrípede que se especialisou em sobreviver na zona de rebentação.
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| Rola-do-mar Arenaria intrepres, esporão do Areão |
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| Pirlito-da-areia Calidris alba, Praia da Vagueira |
A praia alta, aquela parte da praia que por norma não é afectada pela subida ou descida das marés, é relativamente pobre em termos de fauna e flora.É apenas na maior parte das vezes apenas uma zona de trânsito.
A sílica é o principal constituinte desta rocha que é a areia, que constitui a praia. A areia que pisamos numa praia do concelho, não é necessariamente originária da zona, na maior parte das vezes vento e água trouxeram estas partículas de locais distantes, depois de as erodirem e fraccionarem através de forças mecânicas e hidráulicas.
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| Feno-das-areias Elymus farctus |
Com a ajuda do vento, já na parte superior da praia formam-se as dunas. Primeiro é movimentada areia seca através de transporte, durante a baixa mar, sendo depositada no interior. Uma duna começa por se formar quando o Feno-das-areias Elymus farctus coloniza a parte superior da praia, a zona que está acima do nível máximo da preia-mar de uma maré viva. Visto que esta zona acaba por estar sujeita a frequenttes galgamentos marinhos, que aí depositam detritos orgânicos que favorecem a colonização periódica por parte de plantas anuais que resistam á submersão temporária. O feno-das-areias ao fixar-se funciona como um obstáculo ao vento que, na passagem, é travado e a sua carga de areia é aí depositada. Esta areia depositada forma um pequeno montículo, onde por acréscimo devido á presença do Feno-das-areias se deposita mais areia por acção eólica. Esta fase, designada por duna embrionária na qual a duna não ultrapassa 1m de altura, pode durar anos e depende da presença do Feno-das-areias. A partir daí começa a surgir a primeira vegetação, sendo que as espécies que primeiro ocupam este protótipo de duna se designam espécies pioneiras e que ao radicularem (ao criarem raízes) consolidam as areais depositadas.
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| Duna já consolidada. |
Afinal é esta estreita relação entre vento, areia e vegetação que confere ás dunas um papel importantíssimo na protecção do litoral.
Infelizmente em Vagos a duna móvel, a responsável principal, por esta acção protectora, têm vindo a ser muito maltratada devido a interesses económicos. Alguns deles por vezes ilegais, como a extracção de inertes, outros legais e até meritórios,como a actividade agrícola mas que acabam por danificar o equílibrio deste frágil ecossistema. A duna fixa sem bosque quase desapareceu por completo, devido a ocupação humana da faixa onde ela se primitivamente se encontrava. A duna fixa de bosque que encontramos em Vagos, está em relativo bom estado de preservação, na forma da Mata Nacional das Dunas da Vagos.
Os ecossistemas que nelas se formam são, enquanto intocados, de uma riqueza tremenda. São caracterizados pelo dinamismo inerente ás forças fisicas que o condicionam, sendo que aproximação ao mar torna-se um elemento selectivo das espécies animais e vegetais que aqui encontramos. No entanto é só a duna que dá á planta, a duna sem a planta não chegaria a ser duna. Este é um dos motivos pelos quais temos de ter o máximo cuidado com a vegetação que encontramos na duna. Ela é vital para que a estrutura se possa manter. Escusado será dizer que pisar ou destruir esta vegetação é nocivo não apenas para um ecossistema, o é também para uma formação geológica que preserva um espaço humano de lazer como é a praia ou de trabalho ou habitação, sendo esta última a área que se encontra protegida pela duna.
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| O soterramento por parte de areias eólicas é uma constante. |
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| Chorão Carpobrotus edulis |
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| Larva de Formiga-leão Myrmeleon formicarius |
Aprendemos assim que a importância da duna estende-se para além dos seu limites espaciais e que influencia inúmeras espécies vegetais e animais de que dela dependem e das quais a própria duna depende. Para mais, além de se apresentarem como os espaços verdes do litoral, as dunas constituem uma das riquezas ecológicas e paisagísticas do concelho.
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| Tentantiva humana de impedir o desaparecimento da duna através da fixação de estacas de madeira. Praia do Areão. |
Por David Guimarães











